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Dia do Ciclista: violência no trânsito e falta de estrutura fazem 158 vítimas em 2024

Segundo a Semob, 6 ciclistas morreram no trânsito de Belém este ano. Coletivo Paráciclo promove pesquisas nas ruas para subsidiar políticas públicas de mobilidade.

Belém chega ao Dia Nacional do Ciclista, nesta segunda-feira (19), com muitos desafios para quem pedala na capital do Pará. Escolhida como sede da COP 30, o maior evento mundial sobre meio ambiente, a cidade da Amazônia vive a contradição de enfrentar uma crise no transporte público convencional – com redução de frota e precarização dos ônibus – ao mesmo tempo, em que não incentiva o uso da bike, que é uma opção de mobilidade sustentável, não gera poluentes, desafoga o engarrafamento do trânsito e tem baixo custo.

A falta de ciclovias, sinalização e de respeito ao ciclista no trânsito tem custado vidas: apenas este ano, foram registrados 158 acidentes que resultaram na morte de 6 ciclistas, de acordo com dados da Semob.

O caso mais recente ocorreu na quinta-feira (15). Sirleia Brasil pedalava na avenida João Paulo II quando foi atingida por um motociclista que trafegava em alta velocidade. A morte motivou um protesto que reuniu dezenas de ciclistas no trecho do acidente. O grupo pintou a avenida com palavras em homenagem à Sirleia e contra a imprudência no trânsito.

A violência que vitimou Sirlene faz parte do difícil cotidiano de quem pedala pela região metropolitana. Ruth Costa, autônoma, moradora da periferia do bairro Águas Lindas, situado entre Belém e Ananindeua, relata que encara diariamente situações de violência por ser ciclista.

“A gente é desrespeitado todos os dias. Eu pedalo diariamente da minha casa até o centro de Belém, para ir trabalhar. Preciso pegar a BR-316 e não tem ciclovia nem ciclofaixa. Isso já é uma violência, porque nos ignora enquanto parte do trânsito, é como se os ciclistas não existissem. Sem esses espaços para nossa circulação segura, a gente tem que trafegar pela pista. Os carros ficam buzinando, os motoristas xingam, invadem o acostamento que é a parte que nos resta para pedalar. Todos os dias algum motorista tira o ‘fino’ na minha bicicleta e por causa disso, acabei caindo no Entroncamento perto do túnel. Também já aconteceu na avenida José Malcher. Eu parei para reclamar com o motorista e fui ameaçada de levar um tiro”, relata.

Segundo a Semob, Belém possui cerca de 160 km de malha cicloviária, uma soma de ciclovia, ciclofaixa e ciclorrota. Deste total, 50 km seriam recém-inaugurados. No entanto, elas se concentram nas áreas centrais da capital e carecem de manutenção.

“A prioridade no trânsito é dos veículos motorizados. As pistas onde trafegam os carros são muito bem feitas, pelo menos no centro da cidade, já as calçadas e as ciclofaixas são todas quebradas. Por exemplo, quase todo ano a Almirante Barroso é recapeada, mas há 9 anos as ciclovias não recebem manutenção”, denuncia Ruth, que na luta por maior segurança na mobilidade sob duas rodas, tornou-se ativista da causa e é diretora do coletivo Paráciclo, organização do terceiro setor que reúne voluntários na busca por políticas públicas voltadas à dignidade dos ciclistas.

Como mudar o jogo

No esforço de virar esse jogo, os ciclistas mobilizam voluntários para realizar pesquisas que busquem traçar a importância do pedal para a cidade, os desafios dos ciclistas e entender quem são as pessoas que usam a bike e suas motivações para a escolha do modal como transporte.

Daniele Queiroz, ativista do Paráciclo, destaca que uma pesquisa promovida pelo coletivo em 2018 revelou que o usuário mais frequente da bike é o trabalhador da construção civil, o que reforça a relevância social do modal. “Essas pesquisas revelam que mesmo a desrespeito de uma estrutura muito precária, as pessoas fazem sim a opção pela bicicleta por ser um veículo mais sustentável, mais barato e mais eficiente. Então esses estudos são importantes porque nos dão subsídio para exigir políticas públicas de uma forma mais qualificada”.

O coletivo também desenvolveu um projeto chamado “Belém que queremos”, que resultou na implementação de uma ciclovia na Guerra Passos, que liga o bairro de São Brás ao Guamá. “Essa é uma conquista muito importante porque aquele bairro tem um volume enorme de circulação de bicicletas e foi um ganho pra cidade. É pra isso que a gente se mobiliza: por políticas públicas que melhorem a vida das pessoas”, destaca Daniele.

Agora, o Paráciclo promove mais uma ação. Até o mês de setembro, Belém participa da 4ª edição da pesquisa nacional Perfil do Ciclista Brasileiro. De 19 a 23 de agosto, a mobilização ocorre na avenida Augusto Montenegro, cruzamento com a Independência, de 6h às 10h. Cerca de 700 pessoas serão entrevistadas na capital paraense. O estudo ocorre na sede da COP 30 em meio ao debate global sobre a urgência de reduzir a emissão de gases responsáveis pelo efeito estufa – o maior vilão da crise climática.

“É fundamental que os governos façam a escolha por uma matriz energética mais limpa e sustentável, neste sentido, a bicicleta não tem concorrência. É preciso avançar, liderar pelo exemplo seria estratégico para o Brasil esta tomada de decisão enquanto sede da COP 30”, frisa Daniele Queiroz, ativista do Paráciclo

A pesquisa já foi aplicada na avenida Almirante Barroso, esquina com a Tavares Bastos, e em São Brás. Até setembro, as equipes irão passar pela avenida Augusto Montenegro, bairro do Guamá, Terra Firme, Jurunas, Ver o Peso e pelo Telégrafo.

Após a coleta, a fase seguinte é a tabulação dos dados, e traduzir os números concretos que revelem quem são estas pessoas que usam a bicicleta como meio de transporte, o que elas esperam de melhorias concretas traduzidas e revertidas em políticas públicas.

Os resultados serão divulgados no segundo semestre, em um estudo nacional sobre ciclismo.

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