Belém foi o município que mais deu votos à deputada federal Dilvanda Faro (PT) nas eleições de 2022, mas a capital não aparece como destino municipal dos recursos pagos nas dez emendas individuais da parlamentar analisadas pelo Ver-o-Fato em bases oficiais do Governo Federal, com a ferramenta VOF Intelligence*.
Dilvanda recebeu 18.108 votos em Belém, de um total de 150.065 obtidos em todo o Pará. A diferença entre o mapa eleitoral e o das destinações também aparece em Cametá, Barcarena e Moju, municípios onde a parlamentar teve algumas de suas maiores votações e que igualmente ficaram fora dos destinos municipais identificados.
No sentido oposto, cidades onde a então candidata recebeu poucas dezenas de votos aparecem entre as maiores beneficiadas. Primavera, com 31 votos, recebeu R$ 6,97 milhões; Floresta do Araguaia, onde foram 47 votos, aparece com R$ 5,69 milhões; e Piçarra, com apenas 24 votos, recebeu R$ 2,76 milhões.
As dez emendas analisadas, apresentadas entre 2024 e 2026, somam R$ 114,61 milhões empenhados e R$ 110,50 milhões pagos. Desse último valor, R$ 108 milhões puderam ser associados documentalmente a 57 municípios paraenses.
Outros R$ 2,5 milhões permaneceram classificados em âmbito estadual — R$ 500 mil destinados ao Estado do Pará e R$ 2 milhões ao Fundo Estadual de Saúde — e, por isso, não foram atribuídos artificialmente a Belém ou a qualquer outro município.
Quatro municípios deram mais de 39 mil votos, mas não aparecem entre os destinos
O contraste fica mais claro quando se observam as maiores votações de Dilvanda em 2022.
Belém deu 18.108 votos à então candidata. Cametá, 9.382; Barcarena, 5.804; e Moju, 5.770. Juntas, as quatro cidades responderam por 39.064 votos — aproximadamente 26% de toda a votação da parlamentar no Pará.
Nenhuma delas aparece entre os 57 municípios com recursos territorializados nas dez emendas analisadas.
Entre os dez municípios onde Dilvanda teve mais votos e os dez que mais receberam recursos, somente dois aparecem nos dois grupos: Acará e Igarapé-Miri.
Acará deu 11.048 votos à parlamentar e recebeu R$ 6,23 milhões. Igarapé-Miri registrou 3.293 votos e aparece com R$ 5,58 milhões.
Há ainda situações intermediárias. Concórdia do Pará, onde Dilvanda obteve 6.351 votos, recebeu R$ 1,3 milhão. Abaetetuba, com 4.583 votos, aparece com R$ 2,1 milhões. São Domingos do Capim, onde foram 3.369 votos, recebeu R$ 1 milhão.
No outro extremo estão Primavera, Floresta do Araguaia e Piçarra: somadas, as três cidades deram apenas 102 votos à candidata em 2022, mas receberam aproximadamente R$ 15,41 milhões nas destinações identificadas.
A comparação não significa que emendas parlamentares devam ser distribuídas proporcionalmente aos votos. Deputados federais representam o Estado, e não existe obrigação de destinar recursos conforme o desempenho eleitoral em cada município. O cruzamento permite mostrar, entretanto, que a geografia das destinações analisadas é bastante diferente da distribuição dos votos que elegeram Dilvanda.
Foi justamente sobre os critérios utilizados para definir essa distribuição que o Ver-o-Fato questionou a deputada.
Castanhal lidera a distribuição
Castanhal aparece como o maior destino municipal, com R$ 7,16 milhões.
Em seguida estão Primavera, com R$ 6,97 milhões; Capitão Poço, R$ 6,38 milhões; Acará, R$ 6,23 milhões; e Floresta do Araguaia, R$ 5,69 milhões.
Somados, esses cinco municípios receberam R$ 32,42 milhões, o equivalente a aproximadamente 30% dos R$ 108 milhões territorializados.
Na sequência aparecem Igarapé-Miri, com R$ 5,58 milhões; Aurora do Pará, R$ 4,19 milhões; Santa Bárbara do Pará, R$ 4,08 milhões; Ourém, R$ 3,99 milhões; e Ipixuna do Pará, R$ 3,5 milhões.
Os dez primeiros concentram R$ 53,77 milhões, praticamente metade de todo o valor municipalizado identificado.
Recursos de emendas de Dilvanda Faro e votação por município
Valores pagos territorializados nas dez emendas individuais analisadas, de 2024 a 2026, comparados com a votação obtida pela deputada em cada município nas eleições de 2022.
Veja aqui os municípios que receberam: 👇🏾👇🏾
Dinheiro foi para estradas, saúde, pavimentação e equipamentos
Os documentos mostram uma distribuição por diferentes áreas, com recursos para saúde, estradas vicinais, pavimentação urbana e rural, agricultura, assistência social, esporte, saneamento, iluminação pública, ambulâncias e equipamentos.
Em Castanhal, por exemplo, um dos planos de 2026 prevê pavimentação asfáltica de vias nos bairros Novo Estrela e Fonte Boa.
Capitão Poço tem recursos para recuperação de estradas vicinais. Um dos planos descreve intervenção em 13,2 quilômetros entre as comunidades Nova Colônia e Igarapé Grande, destinada a beneficiar produtores rurais e melhorar o escoamento da produção.
Em Acará, uma das destinações é para estádio. Igarapé-Miri aparece com infraestrutura esportiva e pavimentação, enquanto Ourém tem recursos para assistência social e saúde, incluindo um plano para aquisição de duas ambulâncias.
Floresta do Araguaia recebeu recursos para infraestrutura rural. Tomé-Açu aparece com a ampliação e modernização da Feira do Agricultor; Tracuateua, com iluminação pública; Prainha, com cercamento do aeroporto; e Itupiranga, com terminal rodoviário.
Os objetos registrados nos documentos oficiais indicam a finalidade prevista para os recursos. Eles não comprovam, isoladamente, que obras tenham sido concluídas ou equipamentos entregues.
Três emendas PIX somam quase R$ 53 milhões
Das dez emendas analisadas, três são transferências especiais, modalidade conhecida como emenda PIX.
Juntas, somam R$ 52,99 milhões empenhados e R$ 49,88 milhões pagos.
Em 2024, foram R$ 16,5 milhões empenhados e pagos. Em 2025, R$ 18,58 milhões empenhados e R$ 18,39 milhões pagos. A transferência de 2026 registra R$ 17,91 milhões empenhados e R$ 14,99 milhões pagos.
Os planos vinculados a essas transferências detalham finalidades como recuperação de estradas, pavimentação, unidades de saúde, ambulâncias, equipamentos, assistência social, infraestrutura esportiva, iluminação pública e obras urbanas e rurais.
R$ 4,1 milhões separam o empenhado do pago
Considerando as dez emendas, há diferença de R$ 4,11 milhões entre os R$ 114,61 milhões empenhados e os R$ 110,50 milhões pagos.
A maior parcela está na transferência especial de 2026: R$ 17,91 milhões foram empenhados e R$ 14,99 milhões pagos, diferença de aproximadamente R$ 2,92 milhões.
Outra emenda de 2026 tem R$ 14,5 milhões empenhados e R$ 13,5 milhões pagos, deixando R$ 1 milhão de diferença. Na PIX de 2025, são aproximadamente R$ 185,8 mil.
Metas apresentam registros que precisam de esclarecimento
A análise dos planos também encontrou unidades de medida que exigem cautela.
Em Floresta do Araguaia, um objeto descreve recuperação de 155,8 quilômetros, enquanto a meta correspondente aparece registrada como “155800 KM”. Em Primavera, um objeto referente a 1,45 quilômetro está associado a uma meta cadastrada como “145 KM”.
Outros registros utilizam unidades como “MXKM”, “UNXKM” e “CM2”.
As diferenças podem decorrer da forma de preenchimento ou das unidades utilizadas no sistema. Os registros, isoladamente, não demonstram irregularidade e tampouco permitem interpretar literalmente as dimensões físicas das intervenções.
Deputada não respondeu aos questionamentos
O Ver-o-Fato enviou à deputada Dilvanda Faro e à sua assessoria 18 perguntas sobre os resultados deste levantamento.
Entre os esclarecimentos solicitados estão os critérios utilizados para escolher municípios e finalidades, a concentração dos recursos, as transferências especiais, a diferença entre valores empenhados e pagos e os registros de metas que apresentam unidades de medida que precisam de esclarecimento.
O gabinete também foi questionado sobre os critérios territoriais adotados diante das diferenças encontradas entre a distribuição dos recursos e a votação de 2022.
Até o fechamento desta reportagem, a deputada e sua assessoria não haviam respondido.
Caso haja manifestação posterior, o posicionamento poderá ser incorporado à matéria.
* VOF Intelligence é uma ferramenta de investigação e análise de dados desenvolvida pelo Ver-o-Fato para organizar, cruzar e conferir informações de diferentes bases públicas oficiais. Seu objetivo é ampliar a transparência e o controle social sobre o uso do dinheiro público, permitindo acompanhar o caminho dos recursos desde a origem até seus destinos e identificar relações, concentrações, divergências e outros elementos de interesse jornalístico. Entre suas aplicações está o rastreamento de emendas parlamentares, valores, municípios beneficiados, destinatários e demais informações relacionadas à aplicação de recursos públicos, sempre preservando a origem e a natureza de cada dado.
Por Ver O Fato







