Polícia Civil indicia nove pessoas pelo crime de maus-tratos contra 5 crianças em Bragança, no Pará

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Policiais resgataram as crianças durante suposto ritual religioso para acabar com a pandemia, em 17 de abril. Indiciados responderão em liberdade.

A Polícia Civil informou nesta quinta-feira (27) que concluiu o inquérito e indiciou nove pessoas pelo crime de maus-tratos contra cinco crianças em Bragança, nordeste do Pará. Elas foram resgatadas pela polícia, após participarem de ritual religioso na zona rural do município. Segundo o Conselho Tutelar, elas estavam com fome e com sede, expostas ao sol. Os indiciados são familiares e amigos de parentes das crianças. Eles negam os maus-tratos e vão responder em liberdade. A polícia informou que não pode divulgar os nomes dos nove indiciados por cumprimento da Lei de Abuso de Autoridade, que proíbe a divulgação de identidades e imagens de investigados e suspeitos de crimes.

O caso foi investigado após denúncia de vizinhos, no último dia 14 de abril. De acordo com o Conselho Tutelar de Bragança, os parentes das crianças alegaram que a cerimônia teria o objetivo de “acabar com a pandemia da Covid-19”. Vídeos mostram cenas do ritual. Nas imagens, um grupo de pessoas aparece rezando em volta de crianças, que choram e gritam. Ao redor, outras pessoas tentam impedir a ação e são afastadas pelo grupo que realizava o ritual.

De acordo com a conselheira tutelar que fez a denúncia à polícia, uma bebê de um ano e meio e mais duas crianças, de 8 e 10 anos, estavam há dois dias em situação vulnerável durante o ritual religioso realizado por parentes das crianças.

“Um bebê de um ano e dois meses estava recebendo um tratamento cruel e desumano no sol quente. A criança chorava muito. Tinha mais duas crianças na mesma situação, com sede, com fome, e os participantes do ritual não deixavam o Conselho Tutelar nem a Polícia Civil fazer a retirada dessas crianças que estavam sofrendo no sol, com falta de água e com fome”, conta a conselheira Rosa Quemel.https://tpc.googlesyndication.com/safeframe/1-0-38/html/container.html

Segundo Quemel. As meninas relataram que, durante o ritual, era permitido que elas fizessem apenas uma refeição e bebessem água três vezes ao dia. Após o flagrante, equipes do Conselho Tutelar e da Polícia Civil voltaram ao local no dia 18, e constataram que havia outras crianças com indícios de maus-tratos. No dia 19, duas delas, de sete e 11 anos, foram levadas por um parente ao Conselho Tutelar. O pai delas prestou depoimento na delegacia.

De acordo com a conselheira, as cinco crianças resgatadas passaram por exame de corpo delito. O bebê foi entregue ao pai, que mora em Augusto Corrêa, município vizinho de Bragança. As crianças de 7 e 11 anos também estão sob a guarda do pai. Já as meninas de oito e 10 anos continuam no Conselho Tutelar.

Inquérito

Ao todo, foram 15 dias de investigação da Delegacia de Atendimento à Criança e ao Adolescente de Bragança, que ouviu depoimentos 27 pessoas, entre vítimas, testemunhas e suspeitos.

“O caso chocou a comunidade local, gerando repercussão nacional, devido à peculiaridade em que os fatos ocorreram. É importante que as pessoas entendam que a liberdade religiosa é defendida constitucionalmente, contudo, não se pode privar crianças de cuidados indispensáveis ao seu saudável desenvolvimento”, explicou a delegada Luciana Tunes, que presidiu as investigações.

A polícia também fez análises das imagens gravadas no local. Os indiciados vão responder em liberdade.

Família nega maus-tratos

Uma mensagem que circulou nas redes sociais falava de um ritual para acabar com a Covid-19 e que duas crianças seriam sacrificadas. A Polícia Civil não confirmou essa informação. Uma familiar, que preferiu não se identificar e que estava no local quando tudo aconteceu, disse em entrevista ao G1 que houve uma interpretação errada dos fatos.

“Até agora, tudo o que vi foi manchar a imagem da minha família, que sempre foi muito católica, religiosa e entregue à fé. As crianças não estavam sendo maltratadas e ninguém nunca nos acusou disso. Se a gente fosse pessoas más, nós estaríamos onde? O que nos fizeram é uma injustiça. Nos tiraram quatro crianças naquele dia”, disse a parente das crianças.

Nos vídeos que circularam nas redes sociais, além do bebê de um ano que estava no colo de um homem enquanto ele reza, é possível ver uma menina presa em uma cruz. Segundo a Polícia Civil, cerca de 10 pessoas da mesma família estão sendo investigadas e devem prestar depoimento. Para os familiares, tudo não se trata de um mal-entendido e eles pedem justiça.

“Tudo começou com a calúnia, com a retirada das nossas crianças, e terminou com essa agressão e violência. Tudo o que pedimos é justiça, porque quem mais sofreu com tudo isso foram as crianças, que foram retiradas com violência, que sofreram com o medo da situação e com a distância da família. Mas temos fé que isso vai se resolver, pois quem teme a mentira é o demônio”, finaliza.

Fonte: G1 Pará

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