Filantropo e executivo mineiro, fundador da Golden Cross, dedicou mais de meio século ao financiamento de projetos de educação, assistência social e evangelismo pela mídia
Uma atuação significativa para a expansão da mensagem bíblica apresentada pela Igreja Adventista do Sétimo Dia se tornou o legado do empresário Milton Soldani Afonso. Reconhecido por sua contribuição ao longo dos anos, por cooperar com áreas como a comunicação e a educação adventista, ele faleceu nesta quarta-feira, 2 de setembro, no Rio de Janeiro.
Nascido em Nova Lima, no interior de Minas Gerais, em 12 de dezembro de 1921, foi o principal apoiador privado dos projetos de comunicação e de educação da denominação na América do Sul, e recebeu, em 2012, o título de patrono da comunicação adventista no continente.
A trajetória do empresário se confunde com a própria história da organização adventista no Brasil. Milton Afonso conheceu a mensagem adventista aos nove anos e foi batizado em 1937. Do menino que vendia doces caseiros nas ruas ao empresário que fundou uma das maiores operadoras de saúde do mundo, ele manteve, segundo relatou em diferentes ocasiões, uma única motivação declarada: usar o que construiu para abrir caminhos para outras pessoas.
Do interior de Minas para a colportagem
Filho de José Afonso Filho e Genebra Soldani, cresceu em uma casa sem água encanada nem instalações sanitárias. A mãe trabalhava como costureira; o pai, garçom e depois eletricista. Desde criança, Milton vendia nas ruas os doces que a mãe preparava para ajudar no orçamento da família.
Em 1934, aos 13 anos, chegou ao Colégio Adventista Brasileiro, em São Paulo, atual Centro Universitário Adventista de São Paulo (Unasp). Não tinha recursos para pagar as mensalidades. Foi ali, entre dificuldades para permanecer estudando, que nasceu a promessa que orientaria boa parte de sua vida adulta: se um dia pudesse, custearia os estudos de quem estivesse na mesma situação.
A atividade da colportagem, que consiste na venda de livros por meio do Ministério das Publicações, sustentou sua formação e o moldou a ser vendedor. Por volta de 1943, tornou-se o colportor-evangelista com maior volume de vendas no Brasil. Formou-se em Direito pela Faculdade de Niterói no início dos anos 1950 e, em 1951, criou a Casa Editora de Legislação, cuja revista Legislação Federal se tornou referência na área de imposto de renda.
A Golden Cross
Em abril de 1971, aos 49 anos, deixou o emprego que mantinha no Hospital Adventista Silvestre, no Rio de Janeiro, e abriu um pequeno escritório para vender planos de assistência médica. Foi o começo da Golden Cross, uma empresa altamente reconhecida no País e cuja parte dos lucros, por algum tempo, foi destinada a projetos educacionais, de assistência social e de evangelização.
Educação: uma promessa cumprida
No fim de 1985, Milton Afonso assumiu a administração da Organização Santamarense de Educação e Cultura (OSEC), em São Paulo. Entre 1985 e 1994 aportou recursos na instituição, consolidada em 1994 como Universidade de Santo Amaro (Unisa).
Paralelamente, manteve por décadas um programa de bolsas em instituições adventistas. Dezenas de milhares de estudantes tiveram mensalidades custeadas total ou parcialmente por ele. Muitos sem jamais tê-lo conhecido pessoalmente. Também sustentou lares substitutos e orfanatos, além de obras em colégios e internatos, e a construção de igrejas em diferentes estados. Em 2015, por ocasião do centenário do campus São Paulo do Unasp, onde estudou, a instituição inaugurou uma praça com o nome do filantropo.
A comunicação da esperança
O investimento em mídia religiosa é um legado significativo de Milton Afonso. Quando pouco se falava ainda em evangelização por meios de comunicação de massa, ele iniciou os investimentos para criação de um centro de mídia adventista. Daquela iniciativa nasceria a Rede Novo Tempo de Comunicação, hoje com transmissão em português e espanhol para milhões de pessoas. Além disso, foi um apoiador de iniciativas de comunicação em nível mundial.
Em dezembro de 2012, ao completar 91 anos, recebeu o título de patrono da comunicação adventista na América do Sul. Neste mesmo momento ocorreu a inauguração, em Jacareí (SP), do prédio que leva seu nome, um complexo de seis estúdios em cinco mil metros quadrados. Na ocasião, o então presidente da Igreja Adventista na América do Sul, pastor Erton C. Köhler, atual presidente da Associação Geral da Igreja Adventista do Sétimo Dia, destacou que boa parte das pessoas que chegam à igreja no continente o faz por meio do rádio, da TV e da internet, ministérios sustentados pelo apoio do empresário.
Em 8 de dezembro de 2021, o centenário de Milton Afonso foi celebrado em culto de ação de graças no Centro de Mídia Novo Tempo, com a presença do então presidente mundial da denominação, pastor Ted Wilson, que viajou ao Brasil para o evento, e do presidente da Divisão Sul-Americana da denominação, pastor Stanley Arco. Perguntado sobre o que a Novo Tempo representava para ele, respondeu que sempre sonhou que a Igreja tivesse um veículo forte de comunicação. Na mesma cerimônia foi inaugurado o espaço Milton Soldani Afonso no museu da instituição.
Sua contribuição à memória e ao patrimônio cultural também é significativa. Doou ao Unasp cerca de 1.600 artefatos entre moedas persas, gregas, romanas e medievais, objetos e livros raros, acervo que constitui a base do Museu de Arqueologia Bíblica, o MAB.
Memória viva
O presidente da Divisão Sul-Americana da Igreja Adventista do Sétimo Dia, pastor Stanley Arco, lembra que “há pessoas que deixam marcas na vida. E há pessoas que acima de tudo, deixam um legado. É algo muito forte deixar um legado. Tem a ver com manter princípios e exemplo muito vivos ainda”. E complementa: “nosso querido irmão Milton Afonso foi um destes que deixou legado. Sua conduta, suas atitudes e sua fé continuarão completamente vivas para todos nós e para as próximas gerações. O legado do doutor Milton Afonso certamente produzirá frutos para a eternidade, assim como diz o texto de Provérbios 11:30: “O fruto do justo é árvore de vida, e o que ganha almas é sábio”.
O pastor Erton Köhler, presidente mundial adventista, afirma: “sempre fui admirador do seu compromisso com a Igreja. Durante os anos que servi a igreja na América do Sul, tive oportunidades preciosas de visitá-lo e expressar pessoalmente minha gratidão. Ele compreendeu com extraordinária visão que a educação poderia mudar destinos e a comunicação levaria o evangelho muito além das nossas paredes. Isso não ficou apenas na visão. Ele investiu nela e fez a diferença. Deus colocou os recursos na mão dele e ele decidiu transformá-los em missão.”.
Casado com Arlete Carvalho da Silva Afonso, falecida em 2020, aos 96 anos, deixa os filhos Celso, Carlos, Neide e Paulo César. Em dezembro de 2021, recebeu da Câmara Municipal do Rio de Janeiro o Conjunto de Medalhas de Mérito Pedro Ernesto, máxima comenda do município, entregue em sua residência.
Por Adventista do Sétimo Dia







