Grupo de 147 venezuelanos enviados de Miami foi alojado em hotel que desabou com os terremotos de 7,2 e 7,5; apenas 12 escaparam com vida, enquanto bombeiros brasileiros atuam em La Guaira
Brasília – Uma sequência de eventos marcados por ironia trágica transformou a história de 147 venezuelanos deportados dos Estados Unidos em um dos episódios mais dramáticos dos terremotos que devastaram o litoral norte da Venezuela em 24 de junho de 2026. Bairros inteiros foram varridos e os imóveis se transformaram num amontoado de escombros e cheiro nauseante é o da morte.
O grupo desembarcara em Caracas na manhã daquela terça-feira, em um voo procedente de Miami, e foi encaminhado por autoridades venezuelanas ao Hotel Sanitário La Llanada, na cidade portuária de La Guaira, cerca de 40 quilômetros da capital, Caracas. Apenas seis horas depois, um terremoto duplo — uma pré-sacudida de magnitude 7,2 seguida 39 segundos depois por um tremor principal de 7,5 — reduziu o edifício a escombros.
Segundo relatos de sobreviventes divulgados por familiares, somente 12 dos 147 deportados conseguiram deixar o hotel com vida. Entre os integrantes do grupo estavam pelo menos sete crianças.
Até o momento, o governo venezuelano não divulgou uma lista oficial com os nomes das vítimas nem informou quantos corpos foram resgatados. Familiares dos imigrantes afirmam que seguem sem qualquer notícia sobre o paradeiro da maioria dos deportados, em meio ao caos que tomou conta da região litorânea.
As deportações fazem parte da política migratória endurecida do presidente Donald Trump, que desde 2025 intensificou as remoções de imigrantes venezuelanos em situação irregular nos Estados Unidos.
Em fevereiro de 2025, os dois primeiros voos com deportados haviam chegado a Caracas, transportando 190 pessoas. A Suprema Corte dos EUA, em maio de 2025, autorizara o governo Trump a usar instrumentos legais do século XVIII para acelerar deportações de venezuelanos, sinalizando o endurecimento da política migratória. O voo que chegou em 24 de junho era parte desse fluxo contínuo de repatriações forçadas.
O local onde os deportados foram alojados, La Guaira, acabou se tornando o epicentro da devastação. A cidade portuária concentra parte da destruição causada pelos tremores, com dezenas de edifícios colapsados e equipes de resgate nacionais e internacionais mobilizadas em operações de busca que já ultrapassam quatro dias.
Especialistas alertam que as chances de encontrar sobreviventes diminuem significativamente após as primeiras 72 horas de soterramento, embora resgates considerados milagrosos — incluindo crianças e bebês retirados com vida dos escombros — ainda ocorressem nos dias seguintes.
O drama específico dos deportados insere-se em uma catástrofe humanitária de proporções nacionais. O balanço mais recente divulgado pelo governo venezuelano contabiliza ao menos 1.450 mortos, 3.150 feridos e 12.721 desabrigados.
As Nações Unidas estimam que cerca de 50 mil pessoas continuem desaparecidas sob os escombros ou sem contato com familiares. A Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) mobilizou equipes de emergência sanitária, enquanto equipes de resgate de 17 países chegaram a Caracas para auxiliar nas operações.
Brasil lidera esforço regional de socorro
O governo brasileiro foi um dos primeiros a responder à tragédia. Ainda na quarta-feira (24), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva utilizou sua conta na rede social X para manifestar consternação com os terremotos e anunciar que instruíra o Ministério das Relações Exteriores e a embaixada brasileira em Caracas a avaliarem as necessidades imediatas do país vizinho.
Na quinta-feira (25), Lula anunciou formalmente o envio de uma missão humanitária brasileira, e na sexta-feira (26) o primeiro voo partiu com equipes de resgate e suprimentos.
O Brasil mobilizou uma operação de grande escala ao longo dos dias seguintes. Foram enviados ao menos três aviões carregados com toneladas de insumos humanitários, incluindo alimentos, medicamentos, tendas, mantas e equipamentos de resgate.
Um dos voos, confirmado para o sábado (27), transportava também equipamentos para a montagem de um hospital de campanha, capaz de realizar cirurgias e atender centenas de feridos.
Bombeiros militares brasileiros integraram a força-tarefa de resgate em La Guaira, a região mais afetada — e onde estão soterrados os deportados. No domingo (28), um quarto grupo de 35 bombeiros militares brasileiros desembarcou na Venezuela para reforçar a operação, conforme registrado pela teleSUR.
O Itamaraty confirmou ainda a morte de dois brasileiros nos terremotos, sem divulgar detalhes adicionais sobre as circunstâncias. A presença brasileira foi destacada por veículos internacionais como parte de um esforço coordenado que incluiu ainda Estados Unidos, China, França, Espanha, Alemanha e União Europeia, entre outros.
As primeiras 17 toneladas métricas de suprimentos humanitários partiram do centro regional da Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha (IFRC) no Panamá com destino ao país sul-americano.
O caso dos deportados soterrados acrescenta uma camada adicional de complexidade política a um cenário já volátil. A Venezuela é governada desde janeiro de 2026 pela presidente interina Delcy Rodríguez, que assumiu o cargo após a captura de Nicolás Maduro em uma operação militar dos Estados Unidos.
Rodríguez, que fora vice-presidente de Maduro, buscou desde então equilibrar um discurso de independência nacional com a aproximação tática ao governo Trump — que, em abril de 2026, removeu sanções impostas a ela.
A tragédia em La Guaira ocorre em um momento particularmente sensível dessa relação bilateral. Em 14 de junho, a CNN noticiara que Delcy Rodríguez conseguira atrair Trump para uma aproximação diplomática.
Pouco mais de uma semana depois, os deportados que os EUA enviaram de volta à Venezuela estavam sob os escombros. A presidente interina declarou estado de emergência, fechou o Aeroporto Internacional de Maiquetía e visitou a zona de desastre em Macuto, onde foi recebida por vaias de moradores que criticavam a lentidão da resposta oficial.
A paradoxal situação também gerou comoção em Miami, onde vivem centenas de milhares de venezuelanos. Familiares dos deportados passaram a pressionar — por meio de organizações comunitárias — o governo Trump a adiar novas deportações e a estender o Status de Proteção Temporária (TPS) para venezuelanos, enquanto o paradeiro dos 147 deportados do voo de 24 de junho segue oficialmente desconhecido.
Enquanto equipes de resgate — incluindo os bombeiros brasileiros já atuando em La Guaira — continuam a remover escombros, a pergunta que ecoa entre familiares e organizações humanitárias é se o governo venezuelano conseguirá ao menos contabilizar e identificar os mortos e se os Estados Unidos, que enviaram aqueles cidadãos de volta ao país horas antes da tragédia, assumirão alguma responsabilidade pelo destino dos deportados.
O silêncio oficial de Caracas sobre a lista de vítimas e as circunstâncias do colapso do hotel mantém as famílias em uma angustiante espera, enquanto o mundo acompanha uma das maiores tragédias humanitárias do país em mais de um século.
Por Ver-O-Fato








