Brasileiro que lutava na Ucrânia morre em ataque de drone no dia do aniversário, diz família

Homem voltou escondido à Ucrânia buscando pagar o tratamento da filha e faleceu no dia do aniversário. Procurado, Itamaraty não se pronunciou. Família busca meios de trazer o corpo para o Brasil.

Um homem de 41 anos que atuava como soldado na região de Donbas, uma das zonas de maior conflito na Ucrânia durante a guerra contra a Rússia, morreu após ser vítima de um ataque por drone. A informação foi relatada pela família, que agora tenta trazer o corpo para o Brasil. 

O homem deixa uma esposa, uma filha de 5 anos e duas enteadas. 

A esposa dele, Marili Rodrigues, de 40 anos, foi comunicada nesta quarta-feira (26) sobre a morte de Tiago Rodrigues Marques por combatentes brasileiros que atuavam junto com ele. Tiago era gaúcho, morava em Gravataí e estava na Ucrânia desde março. Segundo os soldados, o ataque teria ocorrido em 24 de agosto, dia do seu aniversário.

“Era 4h30 da manhã (horário de Brasília) quando ele me avisou que estava sob ataque, que ia procurar um lugar seguro e qualquer coisa dava notícias. E nunca mais respondeu o celular. Hoje, um colega dele me chamou para dar a notícia de que ele tinha sido atacado e estava morto”, relata Marili.

g1 contatou o Itamaraty para saber se o Ministério de Relações Exteriores tem conhecimento deste caso e se há uma confirmação oficial da morte de Tiago, dentre outras informações. Até a publicação desta reportagem, não houve retorno.

O que é Donbas: é uma região no leste da Ucrânia formada por Donetsk e Luhansk, historicamente ligada à Rússia e importante centro industrial e minerador desde o século 19. Desde 2014, tornou-se foco de conflito entre Moscou e Kiev, após a Revolução da Praça Maidan, que depôs o presidente pró-Rússia Viktor Yanukovich, e a anexação da Crimeia. Além do peso econômico, tem grande valor estratégico, pois conecta a Rússia à Crimeia e é considerado vital para a defesa ucraniana

Esta não foi a primeira vez que Tiago lutou no conflito. De acordo com Marili, ele ficou por 11 meses no país do Leste Europeuentre 2024 e 2025, combatendo por uma legião internacional. Desta vez, teria sido recrutado pelo próprio Exército Ucraniano. 

A esposa afirma que ele teria sido motivado pelo salário prometido. O casal tem uma filha de 5 anos que tem transtorno do espectro autista e convive com dificuldades para arcar com o tratamento da menina. 

“O Tiago foi para lá em busca de condições melhores para o tratamento, porque eles ofereciam um salário de R$ 50 mil. Só que, quando eles chegaram lá, era 50 mil Grívnia (ou Hryvnia, moeda ucraniana), não euros. E tinha bônus separado por missão, de 70 mil Grívnias, que hoje daria R$ 8 mil. Ele teria recebido na conta dele na segunda, mas ele já estava morto”, conta.

“Era uma conta da Ucrânia que agora a gente não tem acesso a esse dinheiro, mas isso agora não é algo gente está preocupado. Estamos preocupados em como fazer para conseguir buscar o corpo”, completa.

Após o ataque, não teria sido possível recuperar o corpo de Tiago. O ataque ocorreu a cerca de 9 quilômetros de uma região conhecida como local seguro, que fica livre de combate. 

“Eles estão num bunker escondido, esperando o momento para irem para a casa segura, onde não tem mais risco. E ele (colega da Tiago) ainda disse, para a gente correr, enquanto ainda existe um corpo”, disse Marili.

Marili afirma que enviou um ofício para o Itamaraty, acionando o órgão por meio de uma liminar, buscando com que o consulado brasileiro na Ucrânia informe oficialmente sobre a morte e ajude na recuperação do corpo. 

‘Mãe, o pai não responde’

Além da própria filha, Tiago ajudava Marili a cuidar de outras duas meninas dela, uma de 10 e outra de 17 anos. Apenas esta sabe do ocorrido por enquanto. “Eu não tive coragem de contar para as menores”, afirma

Tiago faleceu justamente no dia do seu aniversário, mas a família tomou conhecimento apenas dois dias depois. A filha do casal enviou um vídeo de parabéns para o pai, mas nunca recebeu uma resposta.

Homem voltou à Ucrânia ‘escondido’; família era contra

Tiago viajou à Ucrânia com certo grau de conhecimento do que o esperava. Da primeira vez, foi às escuras, conta a família. Desta vez, acreditou que seria diferente. 

“Quando ele voltou à Ucrânia, tinha outra promessa que não ia ser que nem os mercenários, ia ser diferente e que eles iam ter todas as garantias, na esperança de que ia ser diferente”, afirma Marili.

Mesmo assim, ela era contra. Por mais que a família precise de dinheiro, não queria ver o marido afastado justamente em um momento crucial no tratamento da filha, inserida no espectro autista. 

“A gente pediu muito que ele não fosse, até porque estava no auge do tratamento da minha menina, no período mais difícil dela.”

Tiago, então, decidiu ir sem avisar seus familiares. 

“Ele nem nos falou. Saiu pra ir trabalhar normal, pegou o voo e foi. No dia, ele foi escondido até da família, porque sabia que não íamos aceitar que ele fosse”, diz a esposa.

Por G1

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