Uma área improvisada às margens do Canal do Tucunduba, em Belém, transformou-se em um inusitado ponto de banho e lazer para moradores da região. O local, que ganhou aparência de uma pequena “praia” durante o período de maré alta, viralizou nas redes sociais após imagens mostrarem pessoas aproveitando a água do canal com guarda-sol, cadeiras e até mesmo um sofá instalado na margem.
Apesar do clima de descontração registrado nas gravações, especialistas alertam que o contato com a água do canal representa sérios riscos à saúde devido à contaminação por esgoto, lixo e outros resíduos.
A área utilizada como balneário improvisado fica na divisa entre os bairros da Terra Firme e do Guamá, justamente em um trecho onde estão sendo realizadas obras de requalificação coordenadas pela Secretaria de Estado de Obras Públicas (Seop).
Recentemente, o canal passou por um processo de dragagem, intervenção que removeu sedimentos acumulados no fundo e ampliou sua largura. A obra acabou criando um espaço às margens que passou a ser utilizado pelos moradores para entrar na água durante a maré cheia.
Calor intenso motivou os primeiros banhos
Segundo moradores, a iniciativa surgiu de maneira espontânea como uma forma de aliviar o forte calor que atinge a capital paraense.
Um dos frequentadores explicou como tudo começou.
“Está muito calor, tiraram as nossas árvores, né? Resolvi tomar um banho, botei a sombrinha aí. Aí veio minha filha, meus netos, as vizinhas”, relatou.
O momento foi filmado da janela de um imóvel vizinho. Depois que o vídeo foi compartilhado na internet, a repercussão foi imediata, atraindo dezenas de pessoas para o local.
As imagens mostram moradores utilizando o espaço como se fosse uma praia, aproveitando a maré alta para se refrescar em meio às altas temperaturas.
Banho no canal faz parte da rotina de antigos moradores
Para quem vive na região há décadas, tomar banho no Canal do Tucunduba não é uma novidade.
Marcos, morador da área desde a década de 1990, afirma que essa prática sempre fez parte do cotidiano da comunidade.
“Sempre tomou banho aqui, nunca ninguém se contaminou com nada”, diz ele.
Segundo o morador, os banhos acontecem apenas durante o pico da maré cheia.
Entretanto, outros moradores reconhecem que a situação do canal mudou bastante ao longo dos últimos anos.
Um residente contou que costumava frequentar o local entre 15 e 20 anos atrás, mas hoje prefere apenas observar, diante da quantidade de resíduos que chegam ao canal.
“Hoje em dia eu não tenho coragem porque sei que vem muita sujeira quando a maré desce”, afirma.
Especialistas alertam para risco de doenças
Embora a cena tenha despertado curiosidade e até humor nas redes sociais, especialistas em saúde fazem um alerta para os perigos da exposição à água de canais urbanos.
Segundo os especialistas, esse tipo de ambiente costuma concentrar resíduos de lixo doméstico, efluentes industriais, esgoto sem tratamento e urina de animais, aumentando significativamente o risco de contaminação.
Entre os principais problemas que podem ser provocados pelo contato com a água contaminada estão:
- Doenças infecciosas provocadas por transmissões bacterianas, virais e fúngicas;
- Problemas dermatológicos, incluindo irritações graves na pele, como dermatite alérgica e dermatite de contato;
- Infecções gastrointestinais, principalmente causadas pela ingestão acidental da água poluída.
Os especialistas também orientam que sintomas como vermelhidão intensa na pele, coceira persistente, febre e diarreia são sinais de alerta para possíveis infecções e exigem atendimento médico imediato.
Falta de áreas de lazer impulsiona uso do canal
Além da busca por diversão, a ocupação do Canal do Tucunduba evidencia problemas históricos enfrentados por moradores da periferia de Belém.
Entre eles estão a falta de arborização e a escassez de espaços públicos destinados ao lazer.
Com o avanço das obras de requalificação, toda a vegetação existente às margens do canal foi retirada, o que aumentou consideravelmente a sensação térmica na região.
Sem condições financeiras para viajar ou realizar passeios de “bate e volta” até praias e balneários localizados fora da capital, muitos moradores passaram a enxergar o canal como a única alternativa para amenizar o calor.
Um dos moradores afirma que a utilização do espaço também representa uma forma de chamar atenção para a situação da comunidade.
“É uma das opções que a população tem de divulgar o descaso e chamar a atenção dos órgãos públicos para ver se essa obra vai para a frente e se a gente tem uma vida digna, que a gente merece”, afirma.
Lixo e animais agravam situação sanitária
A precariedade da infraestrutura também pode ser observada ao longo do Canal do Tucunduba.
O descarte irregular de lixo é frequente nas proximidades da área utilizada para banho.
Além disso, um cavalo foi avistado se alimentando em contêineres de lixo próximos ao ponto onde moradores entram na água, situação que contribui para agravar ainda mais as condições sanitárias do local.
O que diz a Seop
Procurada, a Secretaria de Estado de Obras Públicas (Seop) informou que os serviços de urbanização e qualificação do Canal do Tucunduba seguem em andamento.
Segundo o órgão, o projeto contempla limpeza do terreno, troca de solo, aterramento e terraplanagem, com o objetivo de beneficiar diretamente moradores dos bairros da Terra Firme, Guamá, Canudos e Marco.
A secretaria também informou que a obra possui todas as licenças ambientais necessárias junto ao município.
Sobre a retirada da vegetação, a Seop esclareceu que está sendo elaborado, em conjunto com a Secretaria de Meio Ambiente de Belém (Semma), um plano de arborização para garantir o replantio de árvores na área após a execução das intervenções.
Por Ver-O-Fato







