A Adesão do Pará à Independência, em 15 de agosto de 1823, marcou a incorporação da província ao Brasil. O processo foi complexo, com revoltas e um blefe que mudou a história da região.
Enquanto o Brasil celebra neste 7 de setembro os 204 anos da Independência, um dos capítulos mais curiosos desse processo envolve diretamente o Pará. A então Província do Grão-Pará não aceitou imediatamente a ruptura com Portugal e permaneceu ligada à Coroa portuguesa por quase um ano depois da proclamação de Dom Pedro I.
A Adesão do Pará à Independência, oficializada em 15 de agosto de 1823, é um dos episódios mais importantes da história paraense. A data integra o calendário oficial de feriados estaduais desde 1996 e marca o momento em que a província decidiu, finalmente, fazer parte do Brasil independente.
Mais de dois séculos depois, documentos preservados pelo Arquivo Público do Estado do Pará ajudam a reconstruir um processo marcado por disputas políticas, revoltas, negociações e conflitos que deixariam consequências profundas para a história da Amazônia.
Por que o Pará não quis aderir?
Quando as notícias da Independência do Brasil, proclamada em 7 de setembro de 1822, chegaram ao Grão-Pará, a elite portuguesa que ocupava os principais espaços de poder na província não recebeu bem a novidade.
A região decidiu não reconhecer inicialmente a autoridade de Dom Pedro I, que já comandava o novo Império a partir do Rio de Janeiro. Na prática, o Pará optou por permanecer ligado a Portugal.
Segundo o diretor do Arquivo Público do Estado do Pará, Leonardo Torii, uma das principais explicações está na própria formação administrativa da Amazônia durante o período colonial.
Durante boa parte da colonização, a região amazônica esteve organizada separadamente do chamado Estado do Brasil. Existia o Estado do Grão-Pará e Maranhão, que mantinha relações administrativas diretamente com Lisboa.
“Nós, aqui, recebíamos ordens direto de Lisboa, não de Salvador”, explica Torii.
Essa diferença administrativa contribuiu para criar uma relação muito mais próxima entre as elites locais e Portugal do que com as demais regiões brasileiras.
Outro fator era a forte presença de portugueses na sociedade paraense, especialmente entre os comerciantes. Como as atividades comerciais estavam diretamente ligadas a Lisboa, os interesses econômicos também reforçavam a conexão com a Coroa portuguesa.
Além disso, muitos dos principais cargos públicos da província eram ocupados por portugueses. Quando a Independência foi proclamada, portanto, havia entre as autoridades locais forte resistência à ideia de romper com Portugal.
Revoltas começaram antes da adesão
A resistência à Independência, porém, não era unânime. O cenário no Pará era de tensão política e social, com grupos defendendo a ruptura com Portugal.
Em 14 de abril de 1823, uma revolta ocorreu em Belém em defesa da adesão. Nesse ambiente de disputa política, Felipe Patronifundou o jornal O Paraense, publicação que passou a defender ideias contrárias ao domínio português.
O cônego Batista Campos também escreveu para o periódico e se tornou uma das figuras importantes na articulação política daquele período.
Fora da capital, a pressão também crescia.
Em 28 de maio de 1823, Muaná, no Marajó, chegou a aderir à Independência antes de Belém. O movimento, no entanto, durou apenas cerca de uma semana.
“Muaná é a primeira região da Amazônia a aderir essa Independência, antes da capital, já que Belém só adere em agosto”, explica Leonardo Torii.
A reação portuguesa foi rápida e a revolta acabou sufocada.
Os episódios mostram que a adesão do Pará não ocorreu de maneira tranquila. Pelo contrário: foi resultado de um processo de conflitos políticos e de pressão sobre as autoridades locais.
O blefe que ajudou a mudar a história
Além do Pará, outras regiões importantes, como Maranhão, Bahia e Cisplatina, também não haviam aderido imediatamente à Independência.
Diante da resistência, Dom Pedro I contratou o oficial britânico John Pascoe Grenfell para atuar na incorporação das províncias que ainda permaneciam ligadas a Portugal.
Depois de passar pela Bahia e pelo Maranhão, Grenfell chegou ao Pará.
Mas, antes de desembarcar em Belém, começou uma estratégia que entraria para a história.
Segundo Leonardo Torii, quando ainda estava no Maranhão, Grenfell enviou um emissário ao Pará para avaliar a situação. Depois, ao chegar à região, fez as autoridades locais acreditarem que possuía forças militares suficientes para atacar Belém caso a província não aceitasse a Independência.
O detalhe é que as tropas ainda estavam no Maranhão.
“Foi o grande blefe que deu certo”, resume o diretor do Arquivo Público.
As autoridades paraenses já estavam divididas entre os que defendiam a permanência sob domínio português e os que apoiavam a adesão. Diante da pressão, decidiram romper com Portugal.
Em 15 de agosto de 1823, foi assinada a Ata de Adesão do Pará à Independência do Brasil.
Mais de 100 pessoas assinaram o documento, entre elas figuras como Batista Campos e Félix Clemente Malcher.
O documento permanece preservado no Arquivo Público do Estado do Pará e é uma das principais fontes para compreender aquele momento histórico.
A adesão não trouxe o resultado esperado
A história, porém, não terminou com a assinatura da ata.
Parte das lideranças que apoiaram a adesão esperava que a independência trouxesse maior autonomia para a província. A relação com o novo governo imperial, no entanto, rapidamente começou a gerar frustrações.
Dom Pedro I adotou uma postura considerada centralizadora por esses grupos, e antigos aliados passaram a fazer oposição ao Império.
“Dom Pedro I mostra-se extremamente autoritário, extremamente centralizador e isso decepciona todas essas autoridades que, no primeiro momento, estavam apoiando a adesão”, afirma Torii.
A insatisfação ajudaria a alimentar novos conflitos.
Pouco mais de dois meses depois da adesão, em outubro de 1823, uma revolta eclodiu em Belém. O movimento teve participação do cônego Batista Campos e acabou sendo duramente reprimido pelas forças imperiais.
Entre os episódios mais trágicos está o que ficou conhecido como Tragédia do Brigue Palhaço.
A Tragédia do Brigue Palhaço
Durante a repressão, centenas de pessoas foram presas. Como a cadeia pública não tinha espaço suficiente para receber todos os detidos, parte deles foi colocada no porão do navio Brigue Palhaço.
No dia seguinte, quase todos foram encontrados mortos.
“Eram mais de 200 pessoas e, já que não tinha lugar na cadeia pública, eles os prendem dentro do porão do navio e no outro dia, misteriosamente, eles amanhecem quase todos mortos”, relata Leonardo Torii.
Batista Campos também foi preso durante a repressão. Segundo os relatos históricos, chegou a ser amarrado a um canhão antes de ser posteriormente levado para o Rio de Janeiro.
Ele acabou absolvido e retornou ao Pará.
Mas a experiência não fez com que abandonasse a oposição ao governo imperial. Pelo contrário: Batista Campos continuou difundindo ideias contrárias ao poder central.
A Tragédia do Brigue Palhaço passou a ser lembrada como um dos episódios que alimentaram a revolta contra o Império na província.
Da adesão à Cabanagem
A sequência de conflitos iniciada durante o processo de Independência ajudaria a criar o ambiente político e social que, anos mais tarde, desembocaria na Cabanagem, uma das maiores revoltas do período regencial brasileiro.
Quando o movimento explodiu, em 1835, antigos grupos de oposição ao governo imperial estavam novamente entre os protagonistas.
Para o diretor do Arquivo Público, existe uma ligação direta entre os acontecimentos.
Batista Campos e outros líderes que haviam se decepcionado com os rumos tomados após a adesão passaram a utilizar episódios como a Tragédia do Brigue Palhaço para aumentar a insatisfação da população contra o poder imperial.
Assim, a história da Independência no Pará revela uma particularidade: enquanto o restante do Brasil celebra o 7 de setembro de 1822, a incorporação efetiva da província ao novo país só ocorreu quase um ano depois.
A assinatura de 15 de agosto de 1823encerrou oficialmente a ligação do Pará com Portugal, mas abriu um novo capítulo de disputas que continuariam por décadas e ajudariam a moldar a história política e social da Amazônia.
Por Diário do Pará








